Redação: Pagina do Nortão

Foto: Reprodução(web) – Uma das obras mais impressionantes da arte sacra do norte de Mato Grosso continua emocionando gerações e preservando viva a memória dos pioneiros de Colíder. O gigantesco painel da Santa Ceia, instalado na Igreja Matriz, não representa apenas um símbolo de fé cristã, mas também um verdadeiro patrimônio histórico e cultural construído pelas mãos de artistas colidenses.
Entre os nomes que ajudaram a transformar madeira bruta em uma obra admirada até hoje, destaca-se o pioneiro Mario da Silva, professor aposentado, artista e um dos grandes responsáveis pela criação do monumental painel entalhado em mogno.
A obra nasceu de um sonho idealizado pelo comerciante Pedro Deitos, da tradicional DH Calçados, já falecido. Foi ele quem apresentou a proposta ao Frei Elói e à diretoria da Igreja Católica de Colíder, que aprovaram imediatamente a ideia de criar uma grande representação da Santa Ceia para a Matriz.

Após a aprovação do projeto, Frei Elói conseguiu junto a um fazendeiro da região o patrocínio de aproximadamente 6 metros cúbicos de mogno, madeira nobre que serviria como matéria-prima para o trabalho artístico.
Segundo Mario da Silva, as madeiras chegaram em cerca de 45 pranchas e foram beneficiadas na antiga fábrica de Carroceria JA. Em seguida, o grupo montou um enorme painel em um barracão do antigo Mercado China, local onde atualmente funciona a loja Oba Oba.
O painel impressionava pelas dimensões: aproximadamente 11,50 metros de comprimento por 4 metros de altura.
“O senhor Milton Corban conseguiu uma réplica da Santa Ceia e eu ampliei o desenho muitas vezes através do sistema de quadriculado, desenhando tudo no painel com giz de cera”, relembra Mario da Silva.
Na época, Colíder possuía apenas dois entalhadores: Mario da Silva e seu irmão Nelson Luiz da Silva, ambos pioneiros da cidade. Os dois iniciaram o delicado trabalho de esculpir a madeira.

Mas a grandiosidade da obra exigia mais mãos e dedicação. Foi então que Mario convidou Antônio Levi Rodrigues, conhecido por construir pequenas casas artesanais utilizando palitos de sorvete.
Pouco tempo depois, também passou a integrar a equipe Anísio Matias, carpinteiro reconhecido pelo capricho em seus trabalhos, mesmo sem experiência anterior em entalhes artísticos.
Assim, o grupo principal ficou formado por Mario da Silva, Nelson Luiz da Silva, Antônio Levi Rodrigues e Anísio Matias.
Mario assumiu as partes mais complexas e detalhadas da escultura, enquanto os demais colaboravam nos trabalhos complementares. Durante aproximadamente seis meses, o grupo trabalhou intensamente até concluir a obra, que depois foi desmontada e instalada na Igreja Matriz, onde recebeu os acabamentos finais.
Além dos quatro artistas principais, muitas outras pessoas da comunidade ajudaram direta ou indiretamente na realização do projeto, demonstrando o espírito de união que sempre marcou a história de Colíder.

Ao longo dos anos, a escultura ganhou fama regional e nacional, sendo considerada por muitos como uma das maiores obras sacras entalhadas em madeira da América Latina. A grandiosa Santa Ceia de Colíder chegou inclusive a receber destaque em reportagens nacionais, tornando-se motivo de orgulho para a população local.
Hoje, décadas depois da conclusão do trabalho, o painel continua impressionando moradores e visitantes pela riqueza dos detalhes e pela dimensão artística da obra.
Dos quatro homens que assumiram diretamente a responsabilidade pelo entalhe da Santa Ceia, apenas Mario da Silva permanece vivo. Nelson Luiz da Silva, Antônio Levi Rodrigues e Anísio Matias já partiram, deixando um legado eternizado na madeira e na memória da cidade.

Mais do que uma homenagem à fé cristã, a Santa Ceia da Igreja Matriz representa a dedicação dos pioneiros, a força da arte feita à mão e o espírito coletivo de uma Colíder que cresceu unida.
A trajetória de Mario da Silva merece reconhecimento especial não apenas pelo talento artístico, mas também pela contribuição histórica e cultural deixada para as futuras gerações. Seu trabalho permanece vivo em cada detalhe esculpido no mogno, transformando a obra em um verdadeiro monumento da memória colidense.
Onde há pioneiros, há histórias. E poucas histórias traduzem tão bem a alma de Colíder quanto a grandiosa Santa Ceia construída pelas mãos de seus próprios filhos.





