Quando o poder muda as pessoas

6 de março de 2026
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Publicação: Página do Nortão

Uma reflexão sobre valores, relações e escolhas nas cidades do interior do Nortão

cidades do Nortão, onde quase todo mundo se conhece, amizade não nasce em gabinete.
Ela nasce no chão batido, no comércio antigo, nas conversas de fim de tarde, nas dificuldades enfrentadas juntos quando ainda não havia cargo, palanque ou fotografia oficial.

É nessas cidades que as relações se tornam profundas — porque são construídas na convivência diária, na confiança e no aperto compartilhado.

Com o tempo, alguns caminhos se abrem. Um prospera, aprende a lidar com dinheiro, passa a circular entre autoridades, descobre os bastidores da política e começa a frequentar ambientes onde o sobrenome pesa mais que a história. O outro segue firme, trabalhando, cuidando da família, preservando valores que não mudam conforme o vento político.

E, aos poucos, algo muda.

Quem se aproxima do poder começa a se transformar. Não necessariamente por maldade, mas por adaptação. O poder cria um personagem — e nem todos sabem voltar a ser quem eram antes de vesti-lo.

Nos eventos, nas solenidades e nas festas oficiais tão comuns nas cidades do interior, surgem discursos elogiosos, referências públicas à “família tradicional”, aos “pioneiros”, às “pessoas de bem”. Tudo muito bonito, muito aplaudido.

Mas, fora do microfone, as atitudes rareiam.

E quem ouve os elogios imagina reconhecimento real, quando na verdade muitas vezes está sendo apenas citado como parte de um cenário que ajuda a construir uma imagem pública.

Nortão, onde a política é próxima e o poder parece estar sempre a um aperto de mão, esse tipo de comportamento é mais visível — e também mais doloroso.

falsa sensação de controle cresce. A pessoa passa a agir como se fosse mais do que é, como se o cargo informal fosse permanente, como se o apoio popular fosse garantido. Esquece de ouvir. Esquece de agradecer. Esquece de tratar as pessoas como iguais.

Até que chega o dia em que o povo responde.

A eleição não vem.
O projeto cai.
Os aliados se afastam em silêncio.
E os antigos “companheiros de jornada” desaparecem com a mesma facilidade com que surgiram.

É então que o telefone toca — não mais para orientar, mas para pedir conselho. Do outro lado da linha está alguém que nunca deixou de ser quem era. Alguém que não se deslumbrou, que não trocou dignidade por influência.

E nasce a decepção.

Não por vingança, mas por clareza. A clareza de que nem toda amizade resiste quando o poder entra na conversa. A clareza de que palavras públicas não substituem gestos privados. A clareza de que lealdade não é discurso — é prática.

Nas cidades do Nortão, onde a memória coletiva é forte e a história das famílias atravessa gerações, essas lições não se perdem. Elas circulam nas conversas baixas, nos olhares, nos exemplos silenciosos.

Algumas amizades não acabam com brigas.
Elas apenas ficam no passado — como lembranças que ensinam.

Porque, no fim, quem preserva a dignidade continua andando de cabeça erguida pelas ruas da cidade.
E quem confundiu poder com grandeza precisa aprender a conviver com o silêncio.

Nota da Redação

Esta crônica reflete situações recorrentes nas cidades do interior do Norte de Mato Grosso, onde relações pessoais, políticas e comunitárias se cruzam de forma intensa.

Publicação: Página do Nortão

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